Fertilidade masculina

Fragmentação do DNA espermático: o que o exame mede e quando ele ajuda

O espermograma normal nem sempre explica a dificuldade para engravidar. Entenda o que é a fragmentação do DNA espermático, quando o teste é indicado e seus limites.

Ilustração de uma hélice de DNA em linhas douradas, com pequenas falhas nos filamentos, ao lado da silhueta de um espermatozoide sobre fundo azul-marinho (imagem ilustrativa)
Imagem ilustrativa

Em resumo

  • O espermograma avalia quantidade, movimento e forma dos espermatozoides, mas não mostra se o material genético dentro deles está íntegro.
  • O teste de fragmentação do DNA espermático mede a proporção de espermatozoides com quebras nas fitas de DNA.
  • As diretrizes europeias consideram o teste útil em situações específicas, como perdas gestacionais de repetição e infertilidade sem causa aparente; ele não é um exame de rotina para todos.
  • Calor, tabagismo, varicocele, infecções e idade podem estar associados a mais fragmentação, e parte desses fatores pode ser investigada e tratada.

Muitos casais chegam à consulta com uma dúvida que parece contraditória: “o espermograma deu normal, então por que a gravidez não acontece?”. A pergunta faz sentido. O espermograma é o exame central da avaliação do homem, mas ele conta espermatozoides, observa como se movem e analisa sua forma. O que ele não mostra é a qualidade do material genético que cada espermatozoide carrega. É aí que entra o teste de fragmentação do DNA espermático.

Por dentro do espermatozoide: o que é a fragmentação

Cada espermatozoide leva metade da informação genética do futuro bebê, guardada em um DNA muito compactado. Durante a produção no testículo e o trajeto pelo epidídimo, esse DNA pode sofrer quebras em uma ou nas duas fitas. Uma pequena quantidade de espermatozoides com quebras é esperada em qualquer homem. O problema aparece quando a proporção fica alta.

O óvulo tem alguma capacidade de reparar danos do DNA paterno depois da fecundação, mas essa capacidade é limitada e diminui com a idade da mulher. Por isso, a fragmentação elevada tem sido estudada como um fator que pode dificultar a fecundação, o desenvolvimento do embrião e a manutenção da gestação.

Como o exame é feito

A coleta é parecida com a do espermograma: amostra de sêmen obtida por masturbação, em frasco próprio, depois de um período de abstinência sexual orientado pelo laboratório (em geral de 2 a 7 dias). No laboratório, a amostra passa por técnicas que identificam os espermatozoides com DNA danificado. As mais conhecidas são:

  • TUNEL, que marca diretamente os pontos de quebra;
  • SCSA (ensaio da estrutura da cromatina), feito por citometria de fluxo;
  • SCD (dispersão da cromatina), conhecido como teste do halo;
  • Comet, que mede o “rastro” do DNA fragmentado.

O resultado é expresso como um índice de fragmentação, em porcentagem. Cada técnica tem seus próprios valores de corte, e eles não são intercambiáveis. Um mesmo homem pode ter números diferentes em laboratórios que usam métodos distintos, o que exige cuidado ao comparar exames.

Quando o teste costuma ser indicado

Aqui está o ponto mais importante: o teste não é para todos os homens. As diretrizes da Associação Europeia de Urologia (EAU) apoiam o exame em situações selecionadas, como:

  • casais com perdas gestacionais de repetição, seja após gravidez natural, seja após reprodução assistida;
  • homens com infertilidade sem causa aparente, quando o espermograma e o exame físico não explicam a dificuldade;
  • casos em que a fragmentação pode mudar a conduta, por exemplo na escolha da técnica de reprodução assistida.

A diretriz americana (AUA/ASRM) é mais cautelosa e não recomenda o exame de forma rotineira na avaliação inicial, por causa das diferenças entre os métodos e da evidência ainda em construção. As duas posições não se excluem: o exame tem lugar, mas a indicação deve ser individual.

O que pode aumentar a fragmentação

A lista de fatores associados é longa, e boa parte deles também aparece em outras causas de infertilidade:

  • Varicocele, as veias dilatadas no escroto, que aumentam a temperatura local;
  • Calor: banhos muito quentes e frequentes, sauna, notebook no colo por longos períodos, trabalho próximo a fornos ou caldeiras;
  • Tabagismo e consumo excessivo de álcool;
  • Infecções e inflamações do trato genital;
  • Obesidade, diabetes descontrolado e outras doenças metabólicas;
  • Exposição a toxinas, agrotóxicos e alguns medicamentos;
  • Idade paterna mais avançada;
  • Febre alta recente, que pode alterar a produção de espermatozoides por algumas semanas;
  • Abstinência sexual prolongada, que deixa os espermatozoides mais tempo armazenados.

Em boa parte dos casos, a fragmentação resulta do estresse oxidativo, um desequilíbrio entre radicais livres e as defesas antioxidantes do organismo.

O que acontece depois de um resultado alterado

Um índice elevado não é uma sentença. Ele é uma informação a mais para orientar o raciocínio. A conduta depende da causa provável e do contexto do casal, e pode incluir:

  1. Investigar e tratar fatores reversíveis: avaliar varicocele no exame físico e no ultrassom, tratar infecções, rever medicamentos e exposições no trabalho.
  2. Ajustar hábitos: parar de fumar, reduzir álcool, controlar o peso, evitar calor excessivo na região. Como o ciclo de produção do espermatozoide leva cerca de três meses, os efeitos dessas mudanças só podem ser avaliados depois desse período.
  3. Reduzir o intervalo entre ejaculações perto da coleta ou da tentativa, em casos selecionados.
  4. Discutir com a equipe de reprodução assistida, quando o casal já está em tratamento, as técnicas mais adequadas para o caso.

Suplementos antioxidantes são muito divulgados, mas a evidência sobre seu benefício real na chance de gravidez ainda é inconsistente. O uso deve ser conversado com o médico, sem expectativas exageradas.

Limites do exame

Vale ser honesto sobre o que o teste ainda não resolve:

  • não existe um único valor de corte aceito para todas as técnicas;
  • o resultado pode variar entre amostras do mesmo homem;
  • um índice normal não garante gravidez, assim como um índice alto não impede;
  • nem todo laboratório oferece o exame com controle de qualidade adequado.

Por isso, o teste funciona melhor como parte de uma avaliação completa, que inclui conversa detalhada, exame físico, espermograma bem feito e, quando necessário, dosagens hormonais e exames de imagem.

Perguntas frequentes

Preciso fazer esse exame se meu espermograma veio normal?

Não necessariamente. O teste é considerado quando há uma pergunta clínica que ele pode ajudar a responder, como perdas gestacionais de repetição ou infertilidade sem causa aparente. A decisão é tomada na consulta.

O preparo é diferente do espermograma?

Em geral é parecido: período de abstinência orientado pelo laboratório, coleta completa da amostra e entrega no tempo indicado. Siga sempre as instruções do laboratório escolhido.

A fragmentação do DNA tem tratamento?

A abordagem é dirigida à causa. Quando há varicocele, infecção ou hábitos que favorecem o estresse oxidativo, tratá-los pode melhorar o índice em parte dos homens. A resposta varia de pessoa para pessoa.

O exame substitui outros testes?

Não. Ele complementa o espermograma e a avaliação clínica. Sozinho, não define a causa da infertilidade.

Quanto tempo esperar para repetir o exame?

Como a produção de espermatozoides leva cerca de três meses, a reavaliação depois de uma mudança de hábito ou de um tratamento costuma ser feita após esse intervalo.

Quando procurar o urologista

  • O casal teve duas ou mais perdas gestacionais e o homem ainda não foi avaliado.
  • O espermograma veio dentro dos valores de referência, mas a gravidez não acontece depois de 12 meses de tentativas.
  • Houve falhas repetidas em tratamentos de reprodução assistida.
  • Você tem varicocele, fuma, trabalha exposto a calor intenso ou já usou anabolizantes e planeja ter filhos.
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Referências

  1. European Association of Urology (EAU). Guidelines on Sexual and Reproductive Health – Male Infertility (seção de testes de fragmentação do DNA espermático)
  2. American Urological Association / American Society for Reproductive Medicine (AUA/ASRM). Diagnosis and Treatment of Infertility in Men: AUA/ASRM Guideline
  3. Organização Mundial da Saúde (OMS). WHO laboratory manual for the examination and processing of human semen, 6th ed. (2021)
  4. Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Infertilidade masculina – Portal da Urologia

Conteúdo educativo. Não substitui avaliação médica individual. Em uma emergência, procure atendimento imediato.

Dr. Ruston Louback, urologista, em seu consultório
Sobre o autor

Dr. Ruston Louback

Urologista

CRM-MG 58259 | RQE 57530

Urologista (RQE Urologia 57530), com qualificação também em Cirurgia Oncológica (RQE 27853) e Cirurgia Geral (RQE 27852). Atende em consultório no Centro de Manhuaçu-MG. Os artigos deste blog têm caráter educativo e seguem diretrizes de sociedades médicas.

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