Exames genéticos na infertilidade masculina: cariótipo, cromossomo Y e CFTR
Quando o espermograma mostra pouquíssimos ou nenhum espermatozoide, exames genéticos ajudam a explicar a causa. Veja quando são pedidos e o que cada resultado significa.
Em resumo
- Alterações genéticas estão entre as causas identificáveis de infertilidade masculina, principalmente quando a contagem de espermatozoides é muito baixa ou ausente.
- Os três exames mais usados são o cariótipo, a pesquisa de microdeleções do cromossomo Y e, em casos selecionados, a análise do gene CFTR.
- As diretrizes indicam esses testes conforme o resultado do espermograma e o exame físico, e não para todos os homens.
- O resultado ajuda a escolher o melhor caminho para o casal e a entender riscos para os filhos, por isso deve vir acompanhado de aconselhamento genético.
Quando um homem recebe um espermograma com pouquíssimos espermatozoides, ou com nenhum, a primeira pergunta costuma ser “por quê?”. Em parte dos casos, a resposta está nos genes. Os exames genéticos não servem para todos os homens que tentam ter filhos, mas, nas situações certas, eles explicam a causa, evitam procedimentos desnecessários e orientam o casal sobre o que esperar.
Por que a genética entra na conversa
A produção de espermatozoides depende de centenas de genes funcionando de forma coordenada. Algumas alterações são grandes, visíveis na contagem dos cromossomos. Outras são pequenas, como a perda de um trecho do cromossomo Y ou uma variação em um único gene. As diretrizes da Associação Europeia de Urologia (EAU) mostram que a frequência dessas alterações aumenta à medida que a contagem de espermatozoides cai, e é por isso que a indicação dos exames se baseia, principalmente, no resultado do espermograma.
Cariótipo: a contagem dos cromossomos
O cariótipo é feito com uma amostra de sangue. O laboratório cultiva células e organiza os 46 cromossomos em pares, procurando alterações de número ou de estrutura.
Quando costuma ser pedido: a EAU indica o cariótipo para homens com azoospermia ou com concentração abaixo de 10 milhões de espermatozoides por mililitro. A diretriz americana (AUA/ASRM) usa um ponto de corte um pouco diferente, mas segue a mesma lógica: quanto mais grave a alteração no sêmen, mais justificado o exame.
O que pode aparecer:
- Síndrome de Klinefelter (47,XXY), a alteração cromossômica mais comum em homens com azoospermia. Costuma vir com testículos pequenos e firmes e, às vezes, testosterona baixa;
- Translocações, em que pedaços de cromossomos trocam de lugar. O homem geralmente é saudável, mas pode haver mais risco de perdas gestacionais;
- Outras alterações menos frequentes.
Microdeleções do cromossomo Y
O cromossomo Y tem regiões chamadas AZFa, AZFb e AZFc, ligadas à produção de espermatozoides. Quando um desses trechos está ausente, falamos em microdeleção. O exame também é feito no sangue, por técnicas de biologia molecular.
Quando costuma ser pedido: em homens com azoospermia não obstrutiva ou com concentração muito reduzida de espermatozoides.
Por que o resultado importa:
- deleções completas das regiões AZFa ou AZFb costumam indicar chance muito baixa de encontrar espermatozoides no testículo, o que ajuda a evitar uma cirurgia de busca com pouca probabilidade de sucesso;
- deleções na região AZFc são as mais comuns, e muitos desses homens ainda têm alguma produção de espermatozoides, no sêmen ou no testículo;
- se houver gravidez com espermatozoides de um homem com microdeleção, os filhos homens herdarão a alteração. Essa informação precisa ser discutida antes do tratamento.
Gene CFTR e a ausência do canal deferente
O gene CFTR está ligado à fibrose cística, mas algumas variações nele causam uma situação específica: a ausência congênita do canal deferente, o tubo que leva os espermatozoides do testículo até a uretra. Nesses homens, os testículos produzem espermatozoides, mas eles não chegam ao sêmen.
Quando costuma ser pedido: quando o exame físico não encontra o canal deferente de um ou dos dois lados, ou quando há azoospermia com volume de sêmen baixo e outros achados que sugerem obstrução.
Por que o resultado importa: se o homem tem uma variação do CFTR, a parceira também deve ser avaliada. Se os dois forem portadores, há risco de o bebê ter fibrose cística. O planejamento reprodutivo muda bastante com essa informação.
Outros testes, em casos específicos
Na consulta, conforme a história e os exames, podem ser discutidos testes mais específicos, como painéis de genes ligados à produção de espermatozoides ou investigação de síndromes hormonais de origem genética, por exemplo quando há atraso na puberdade ou alteração do olfato. São exames com indicação restrita e que devem ser interpretados por quem conhece suas limitações.
Aconselhamento genético: o passo que não pode faltar
Um resultado genético não é apenas um laudo. Ele pode trazer informações sobre a saúde do próprio homem, sobre o risco de transmitir uma alteração aos filhos e sobre as opções reprodutivas do casal. Por isso, as diretrizes recomendam que o resultado venha acompanhado de aconselhamento genético: uma conversa estruturada, sem pressa, para explicar o que foi encontrado e quais caminhos existem.
Também é comum que o casal se sinta culpado ou ansioso diante de um diagnóstico genético. Vale lembrar que essas alterações não são causadas por algo que a pessoa fez, e que entender a causa costuma trazer mais clareza do que a incerteza.
Perguntas frequentes
Todo homem com dificuldade para ter filhos precisa de exame genético?
Não. A indicação depende principalmente do espermograma e do exame físico. Homens com contagem normal ou levemente reduzida, em geral, não precisam desses testes como rotina.
Os exames genéticos são feitos no sêmen?
O cariótipo, a pesquisa de microdeleções do Y e a análise do CFTR são feitos em amostra de sangue. O sêmen é usado no espermograma e em testes como o de fragmentação do DNA.
Um resultado alterado significa que não poderei ter filhos?
Nem sempre. Em muitas situações ainda existem caminhos, como a busca de espermatozoides no testículo associada à reprodução assistida. O resultado ajuda a mostrar quais opções fazem sentido em cada caso.
A alteração pode passar para meus filhos?
Algumas sim. As microdeleções do Y passam para os filhos homens, e variações do CFTR podem ter impacto se a parceira também for portadora. Esse é justamente um dos motivos do aconselhamento genético.
Quem deve pedir e interpretar esses exames?
O médico que acompanha a investigação da fertilidade do homem, de preferência em conjunto com a equipe que cuida da parceira e, quando necessário, com um geneticista.
Quando procurar o urologista
- Seu espermograma mostrou azoospermia ou uma concentração muito baixa de espermatozoides, confirmada em mais de um exame.
- No exame físico foram notados testículos pequenos ou a ausência do canal deferente.
- Há na família casos de fibrose cística, infertilidade masculina ou alterações cromossômicas.
- O casal está planejando reprodução assistida e ainda não discutiu a avaliação genética do homem.
Referências
- European Association of Urology (EAU). Guidelines on Sexual and Reproductive Health – Male Infertility (seção de genética: cariótipo, microdeleções do Y e CFTR)
- American Urological Association / American Society for Reproductive Medicine (AUA/ASRM). Diagnosis and Treatment of Infertility in Men: AUA/ASRM Guideline
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Infertility – fact sheet
- Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Infertilidade masculina – Portal da Urologia
Conteúdo educativo. Não substitui avaliação médica individual. Em uma emergência, procure atendimento imediato.